quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu quero namorar! [um texto sobre esperança]

Não vou sentir medo de me entregar
O medo passa longe de mim
Tem que correr quem quiser alcançar
E é claro, claro que eu tô afim

Caju, Caju* eu leio os sinais
Vem vindo coisa boa pra mim
Me sinto bem, me sinto capaz
De transformar o tempo ruim 
(Pode Ser O Que For, Marina Lima)


Incrível como o mundo dá voltas bem antes do que esperamos.

Há pouco mais de um ano, eu escrevi um texto chamado EU NÃO QUERO NAMORAR!!!!!!! (assim mesmo, em letras maiúsculas... como se estivesse gritando, puto da vida).

Mas os últimos meses foram me trazendo novas situações e novas vivências. Felizmente eu consegui me permitir vivê-las e isso me abriu um pouco os horizontes e me trouxe novas perspectivas, a ponto de hoje - junho de 2017 - eu estar escrevendo um texto de título oposto.


Vou narrar brevemente como cheguei até aqui.

Primeiramente, há pouco mais de dois anos fui apresentado a um universo até então desconhecido de festas no qual pude conhecer casais que têm uma vivência a dois, mas que que inclui interações com terceiros, quartos e quintos. Isso é vivido como algo que naturalmente faz parte do 'viver a dois'. Longe de ser algo contraditório, acaba sendo algo agregador e que contribui para fortalecer os laços e manter acessa a chama do tesão - como na história do Laio e Roberto. 

Isso me mostrou que havia possíveis caminhos alternativos à monogamia estrita e aprisionadora - coisa na qual não acredito e onde definitivamente não desejo estar.


Dentro deste contexto, que foi sendo percebido e apreendido por mim, entra a história do André - por mais dolorido que tenha sido o desfecho, por mais raiva que tenha ficado dele, essa história foi uma espécie de turning point. Me permiti novos sentimentos. Gostei demais do André, fiz planos a dois com ele, me vi vivendo uma história ao lado dele sem medo de me sentir sufocado, pois ambos tínhamos uma visão mais aberta sobre relacionamentos e isso foi um fator chave pra me dar tranquilidade em viver isso.


Depois veio o Gustavo, essa certeza de querer namorar aumentou ainda mais, novamente uma conexão incrível e eu continuava tranquilo a respeito disso. Certamente se ele tivesse ficado em Sampa, eu teria me jogado de cabeça nessa história.

A gradação da intensidade atingiu seu ponto máximo há algumas semanas quando um novo encontro aconteceu. Verdadeiro, mágico, quase surreal. Em uma festa nossos olhares se cruzaram e pararam... nos aproximamos, começamos a nos tocar, a nos explorar, a nos [re]conhecer.


Asher tinha um olhar certeiro, firme e eu não me deixei intimidar. Respondi com um olhar tão forte e decidido quanto. Após alguns instantes, o primeiro beijo e foi como se as comportas da represa do desejo tivessem sido abertas e uma energia intensa fluísse dele pra mim e de mim pra ele.

Nós ficamos juntos até o final da festa, numa sintonia incrível, os dois descamisados dançando, cantando, nos beijando, nos tocando, nos abrancando, dizendo coisas lindas no ouvido um do outro. "Babe, I think I like you". "Babe, you´re sooo sexy!". "Babe, I´ll take care of you".  Eu tenho ciência que a bala que eu havia tomado potencializou tudo isso (e ele certamente havia tomado algum aditivo também). Mas isso não tira a autenticidade e a verdade desse encontro.


E por mais incrível que pareça, essa sintonia que tivemos não barrou algumas brincadeiras com terceiros ao longo da noite... houve espaço para alguns bons beijos a três, o que de maneira alguma mudou minha disposição em ficar com ele. Me senti tão à vontade com o Asher, me despi de todas as minhas armaduras, naquele momento fui meu mais autêntico 'eu', disse e fiz coisas de maneira espontânea e sem me preocupar. Parecia que só havia nós dois ali, eu e ele, curtindo o maravilhoso som eletrônico que o DJ tocava.


A festa estava tão, mas tão boa; fazia calor, estávamos ao ar livre e o céu estava lindo... eu não queria que acabasse, não podia acabar, eu queria tanto curti-lo mais... de certa forma eu sentia que aquele momento seria único e muito dificilmente se repetiria.

Terminamos a festa no quarto de hotel dele pra uma noite incrível e gostosa de sexo. Carinho, cuidado, cumplicidade... eu me questionava como era possível que tudo isso acontecesse em tão pouco tempo, com alguém que eu acabara de conhecer. Eu me sentia seguro com ele, cuidado por ele, conectado com ele.


Novamente questões de geografia inviabilizaram a continuidade da história. Vivemos a uma distância muito grande um do outro. Na nossa última conversa via whats up, eu senti na fala dele que seria assim. Claro, não era o que eu queria ouvir, eu preferia ouvi-lo dizer que queria ficar comigo, apesar da distância. Bom, talvez ele seja mais pé no chão do que eu, hehehe...

A: I´m in bed. Going to sleep. Too tired.
HS: In bed... huuummmm
A: ahah. I wish you were here next to me.
HS: Me too. Close to you. I would kiss you the whole night.
A: Why did I meet you. Why? Now yor are so far.
HS: I ask myself the same.
A: For sure.
HS: Don´t know what to do with all this I´m feeling.
A: Feel alike. Can be virtual friends. Tell each other secrets. :)
HS: It´s so unfair.
A: I know! What other options we have?
HS: I was always too rational... too strong. And suddenly one look of you changed everything. 
A: Oh babe. I smile to myself.
HS: Something changed inside me...
A: I´m glad it was me the trigger for this change. You are so cute with a big heart.
HS: Babe, we don´t have to ´label´ things right now... let things flow... without pressure... who knows what can happen...
A: Right. I agree.
HS: Despite anything that can happen (including 'nothing'), I´ll be forever grateful for our paths have crossed that night.
A: So romantic babe. And I think we are also very similar. We have felt the same that night and I´m also very rational and strong.
HS: I´m so happy you felt the same... the connection we had... this is so rare... so difficult to happen... You woked up my romantic side who was asleep hahahahahaha now it´s like a vulcan!!! But instead of fire... it´s all about good feelings hahaha
A: Let it be out. You´re doing it rigt :) And you are so fucking sexy.
HS: Just for you babe.


Será isso o começo do amor? Será isso uma típica manifestação da paixão? Independente do que for, por quanto tempo dura?

Mesmo tendo durado tão pouco e sabendo que as chances desta história vingar são mínimas, esse encontro me trouxe esperança, me fez voltar a acreditar no amor, que o amor pode ser possível pra mim e de que vale muito buscar por algo assim.


Eu andei descrente disso por muitos anos, inclusive pelo que via de casais ao meu redor. O que eu via não me apetecia nem um pouco, ao contrário, me causava repulsa. Mas eu fui catapultado a um outro nível de emoções que nem sei se já senti isso um dia (e sim, eu já me apaixonei algumas vezes no passado, já namorei também).

De repente me peguei fazendo os planos mais malucos, mudando pro país dele, construindo uma vida a dois, reestruturando minha vida pra poder viver ao lado dele [às vezes tenho medo da minha imaginação, porque ela parece não ter limites e me leva a lugares e situações muito diferentes da realidade em que vivo]. Mas fato é que eu tenho muitos sentimentos bons guardados dentro de mim, só esperando uma janela de oportunidade para serem externalizados e exercidos.

Termino dizendo novamente que este é um texto de esperança, de alguém que está buscando a felicidade por caminhos que aos poucos parecem se tornar mais conhecidos, menos sombrios e menos intimidadores.

Eu vivi isso. Foi incrível. Aconteceu comigo. Sou muito grato! Mas agora é hora de esquecê-lo, pra não sofrer mais pela impossibilidade de estarmos juntos. E considerar essa história como parte de um caminho que ainda vai me trazer coisas tão ou mais incríveis e com potencial mais duradouro.

Por enquanto, foram alguns chutes na trave. Em breve, vai vir um gol de placa! Essa história (assim como as outras) me preparam pro futuro que virá! E como diz a canção, vem vindo coisa boa pra mim! 



* Se você não conhece essa canção inspiradora de Marina, clique aqui - e vá até 28m09s (o arquivo é do disco completo Marina Lima, de 1991 - claro, vale muito a pena ouvi-lo inteiro). Quando ela fala Caju, Caju, está se referindo a seu amigo Cazuza, que tinha esse apelido. Provavelmente foi escrita após sua morte e é como se a cantora desse algumas boas novas a ele via plano espiritual.

domingo, 11 de junho de 2017

Marina Lima para libertinos

E finalmente ficou pronta minha trilogia 'Música para libertinos'!!!

Tô muito feliz por ter fechado estes três textos sobre três das minhas cantoras prediletas: Adriana Calcanhotto, Karina Buhr e Marina Lima.

Eles podem ser todos acessados na nossa página cultural na Obvious Magazine. 


 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os impactos das nossas escolhas - um texto 'sobre' e 'para' mulheres

Eu não posso te deixar, te deixar. Querida minha. Te levarei junto. Disse o assassino. Com aplausos do público. (Esôfago - Karina Buhr).

Mulher sem razão ouve o teu homem. (Mulher sem razão - Bebel Gilberto / Cazuza)



Este texto é uma reflexão sobre a difícil conquista da autonomia feminina em um mundo [ainda] machista.

 
Outra viagem de trabalho e um reencontro super gostoso com uma querida amiga de Sampa.

Após muita insistência dela, acabei aceitando o convite para me hospedar em seu apartamento, mesmo tendo a possibilidade de ficar em um hotel pela empresa. Sabia que perderia minha privacidade por completo, assim como a possibilidade de explorar a "cultura local", rs... Mas com certeza valia a pena pela possibilidade de passar mais momentos com ela após mais de dois anos sem nos vermos. 

Marília atualmente é uma dedicada esposa e mãe de uma bebê muito muito fofa, que despera até em mim os instintos mais profundos de paternidade (não se empolgem muito... Já passou rs...). 

 

E vê-la assim me levantou uma série de questionamentos e reflexões.

Marília sempre foi uma mulher independente, decidida, que fazia as coisas sem se importar muito com a opinião alheia. Ela foi criada numa família meio errática, com pai e mãe um tanto quanto desnorteados, mas felizmente (inclusive pelo apoio de tios, tias e primos) conseguiu fazer uma boa faculdade e começou a se estabelecer profissionalmente. Nunca reclamou das dificuldades e sempre deu duro, mesmo em empregos não muito bons. 

Eu sempre admirei essa garra dela e a postura de "comigo não tem tempo ruim, bora vencer na vida!". Ela tinha se mudado pra São Paulo num movimento de ascensão profissional e estava indo muito bem, ganhando mais, comprou o 1o carro e as possibilidades de desenvolvimento na carreira eram evidentes. Os feedbacks da sua chefe eram os melhores e em pouco tempo já tinha se tornado a principal assessora. 

Marília descobriu as delícias de Sampa e se adaptou muito bem aqui, dividindo apto no centro com um colega gay.  Ela é do estilo "mulherão" - pernão, peitão, bundão - então claro que isso chama a atenção dos homens. E ela é beeeem namoradeira, hehehe (sem nenhuma conotação machista que normalmente é dada a este termo, principalmente pelas próprias mulheres) - ela gosta de namorar, de conhecer e de transar com os caras, aparentemente sem muita culpa. O corpo é dela e ela faz dele o que quiser.

 

E isso eu observava, ela se impunha perante os caras, não baixava a cabeça, discutia de igual pra igual... Teve um namoradinho do interior - coitado - era tímido, ingênuo e completamente apaixonado... Penou na mão dela, foi feito de gato e sapato... Já um outro, malandro experiente e um pouco mais velho, tentou, tentou, mas não conseguiu dobrá-la... O namoro era uma constante montanha russa. 

Eis que num momento de solteirice da Marília, a família teve a "infeliz" idéia de apresentá-la ao Marcos.... Sabe aquela coisa da 'cliente da irmã que tem um primo solteiro da igreja' ? Pois fizeram um jantar pra que os dois se conhecessem e eles começaram a se ver, a sair e pouco tempo depois engataram um namoro. Acho isso incrível, porque normalmente se parte do pressuposto de que as pessoas estão infelizes por estarem solteiras, então é uma quase "missão" arrumar alguém pra acabar com isso. E no caso dela, havia um certo incômodo da família por ela ainda não ter se casado  - "afinal" já estava com 30 anos. 

O Marcos é um cara bem conservadozão, bem quadrado... Criação rígida, cresceu na igreja, os pais tinham um pequeno comércio e ele também sempre batalhou desde cedo. Do que consigo ver, acho que talvez nunca tenha tido espaço pra maiores diversões ou prazeres na vida, o importante era trabalhar, juntar dinheiro, ter uma vida melhor e com conforto. O resto é pura bobagem [meu pai pensa assim também].

O namoro foi evoluindo até que fatalmente veio a proposta de casamento, mas que implicaria em uma mudança para bem longe de São Paulo. A Marília tentou ainda arrumar um trabalho pro Marcos aqui, na empresa de um amigo nosso, mas o Marcos não queria ficar em São Paulo, não gostava aqui, da bagunça e agitação, queria um lugar mais tranquilo e seguro. Daí ele de certa forma colocou um ponto de inflexão na história: se ela não quisesse se mudar com ele, talvez fosse o caso de não se verem mais. 

O fato é que Marília aceitou a proposta, eles se casaram e se mudaram de São Paulo para tentar a vida em outro lugar. Caso não desse certo, ficou acertado que voltariam.

Mas deu certo... 

E ela ficou definitivamente com Marcos numa cidade bem longe de São Paulo e da família dela. Pouco tempo depois eles engravidaram e atualmente ela cuida da casa e da filhinha recém nascida. 

A dinâmica do casal é interessante. Eu sinto que o Marcos se incomoda muito com esse jeito mais expansivo e espevitado da Marília - ela ri alto, é desbocada, adoooora uma cerveja... E na concepção do Marcos, isso não cabe a uma esposa-mãe. É mais uma vez a reedição do tosco "bela, recatada e do lar". Sinto que o homem hétero brasileiro padrão foi educado pra buscar isso: uma mulher que seja "discreta" (aaaahhhhh como odeio a conotação que deram a essa palavra nos nossos dias!!!!), que fale baixinho, que não seja questionadora, que acate as decisões do marido, afinal ele é o provedor do lar e "chefe" da família. 

 

Bom, se você considerar que a bíblia exorta as mulheres a serem submissas a seus maridos, não é de se espantar, né? (E daí os cristãos precisam dar saltos triplos carpados hemenêuticos pra justificar essa passagem de Paulo, relativizando o alcançe da palavra "submissa" - mas na verdade continuam pregando que cabe ao homem a palavra final sobre a família... Não muito diferente do que era no império romano... só não pode mais matar... Ah... Bater também não pode.... Até que é um avanço, não acham ?).

Mas voltando à dinâmica do casal - enquanto eu estava no carro com eles passeando pela cidade, os dois constantemente discutiam, trocavam umas farpinhas, umas ironias... E ele tem o hábito de chamá-la de "querida", e o tom é o pior possível, um tom irônico, do tipo "presta atenção na bobagem que você tá dizendo". O bom é que ela não se faz de rogada e revida. Ele fala pausado e baixo. Ela fala alto e incisivamente. Eu sinto que ele sempre tá querendo dobrá-la, quase que domesticá-la. Fica tentando fazer com que ela não beba, por exemplo. Só que naquele lugar, beber seja talvez o único pequeno prazer que ela tenha. 

 

Numa de nossas conversas a sós isso tudo veio à tona de forma sutil. Claro, eu não iria dizer tudo o que achava, que achava que ela não deveria ter saído de São Paulo, que deveria ter ficado aqui e feito carreira, curtido a cidade e que caso quisesse se casar, que fosse com alguém mais parecido com ela. A essa altura do campeonato, seria muito cruel da minha parte fazer isso. 

Mas eu sinto que ela vive esse conflito até hoje, pensando se fez a melhor escolha. E de certa forma, pra buscar um pouco de conforto (porque reverter uma decisão dessa é muito custoso - praticamente impossível) ela busca formas de se convencer. A tantas da conversa ela me fala - "Ah, o Marcos foi um presente de deus". Foi como se ela entendensse que estava trilhando um caminho errado em São Paulo e que deus então, para "ajudá-la" a corrigir esse caminho, tivesse mandado um varão para resgatá-la. 

Incrível como na visão dela, a vida que ela levava em São Paulo - autônoma, dinâmica, intensa e pazerosa - talvez não fosse a mais adequada para uma mulhere 'direita'.  É um movimento forte, e às vezes é difícil resistir. Essa sensação de impropriedade, de culpa, de reprovação - que é sentida por nós mesmos mas também que vem em nossa direção a partir de pessoas próximas. A Marília tentou resistir à pressão da família, conseguiu por um tempo, mas aos 44 do segundo tempo, acabou cedendo a essa idéia e optou por "adequar-se".

Sempre me incomodou e me revoltou esse tipo de movimento na nossa sociedade machista e patriarcal. Primeiro há a figura paterna para manter as mulheres dóceis e bem comportadas. O pai é substituído na sequência pela figura do marido e esse cerceamento continua firme e forte. Felizmente muita coisa mudou, a começar pelo discurso, pregando mais igualdade entre os gêneros. Mas a prática ainda deixa muito a desejar. Muitas mulheres são cotidianamente cerceadas por seus maridos em sua autonomia. Muitas nem se dão conta disso. Outras aceitam passivamente. Algumas poucas tentam se rebelar e pagam um alto preço. Pagam o preço de serem hostilizadas por parentes e amigos próximos ao casal, são taxadas de inadequadas, isso quando não sofrem algum tipo de violência física ou verbal.

Eu espero que mesmo em um cenário que não lhe é muito favorável, a Marília consiga incorporar outros papéis ao de mãe e esposa - ela é  do tipo empreendedora e certamente vai acabar abrindo um pequeno negócio na cidade. Torço pra que resista a todas as pressões ilegítimas que incidem sobre ela, que não se submeta aos caprichos machistas do marido (que pensa inclusive estar agindo na melhor das intenções, em benefício do casal e da própria família) e que continue a tomar sua cervejinha gelada sempre que quiser! 

 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Parceiros egoístas e a renúncia


 

A gota d'água pra escrever este texto veio de um post que li no insta de um médico subcelebridade que sigo.

Sinceramente, nem sei ao certo porquê continuo o seguindo, pois o cara se acha a última coca-cola do deserto e claramente usa o instagram pra se expôr, adora criar uma controvérsia pra movimentar sua página e o pior é que as pessoas fazem justamente o que ele espera que façam. E ele ganha fama na rede, ganha mais pacientes no consultório e mais participantes nos cursos que dá. Mais importante ainda, alimenta e massageia seu ego. Talvez manje de marketing tanto quanto parece manjar de medicina.

Mas esse post em especial me incomodou bastante. Ele fez uma espécie de declaração para a noiva, elogiando-a, dizendo que se sentia muito feliz por saber que ela o amava, que ela tinha muitas qualidades - era discreta (coisa que ele não é nem um pouco), bondosa, família e acima de tudo segura. Foi quase uma reedição do machista "bela, recatada e do lar" - a mulher que se anula para que o homem à sua frente possa brilhar. 

Ele a agradece pelo fato de ficar na retaguarda para que ele possa cumprir sua "missão" na terra de ajudar as pessoas. Para fazer isso ele precisa trabalhar muito, inclusive nos finais de semana, e ela está lá, o apoiando ainda que isso signifique pouco tempo na presença dele. 

"E não haveria possibilidade para que minha vida fosse direcionada realmente a esta minha missão de mudar vidas, se ela não estivesse por trás dando suporte, sendo tudo o que é pra mim, e ainda por cima tendo esta surpreendente segurança, que aceita com a maior das compreensões que minha missão não deve ser interrompida ou ter mais um obstáculo dentre tantos, desnecessariamente. "

Quando li o post pensei comigo: nossa, tomara que ela sinta o mesmo em relação a ele. Tomara que ela sinta essa mesma segurança quanto ao sentimento dele por ela. 

Eu fiquei incomodado com o post porque soa como se o cara estivesse usando a noiva pra um projeto pessoal dele sem necessariamente torná-la parte dele. Ela tá lá à disposição dele, pra quando ele precisar, pra quando ele não estiver na missão de mudar vidas e precisar de alguém pra fazer companhia.  Soa pra mim extremamente egoísta. O que importa é ele, o projeto dele, a suposta missão dada a ele por deus para ser cumprida na terra (nossa, como o cara é importante, né? Recebeu uma missão pra cumprir na terra!). Auto estima é mesmo tudo na vida!

 

E o que será que esse cara faz pela noiva? Será que consegue abrir um espaço dentro do seu mundo-umbigo para enxergá-la como pessoa distinta do projeto megalomaníaco dele? Será que ele também participa dos projetos dela? (Ou será que ela nem tem como ter seus projetos ou ter a presença dele nestes sob risco da missão divina na terra ser ameaçada?)

A partir desse exemplo, eu fiquei pensando em como muitas pessoas tratam seus parceiros de forma utilitarista, fazendo com que eles sirvam a seus projetos pessoais, sem necessariamente dar nada em troca. O que importa é esse projeto e a pessoa está tão encimesmada que não consegue olhar para o outro e perceber as suas necessidades e os seus projetos. E isso muitas vezes acontece de forma extremamente sutil, sem que o outro se dê conta.

Ainda por cima o outro, na ânsia de ajudar o parceiro e talvez como forma de 'garantir' o seu amor, muitas vezes acaba aceitando isso e aos poucos vai se anulando, perdendo sua individualidade e passando a viver a vida em função de um projeto que não é seu. Pagam um alto preço na forma de insignificância e anulação - e se um dia em que tomarem um pé na bunda por não servirem mais ao projeto do parceiro, sairão sem nada construído. 

Isso acontece muito com mulheres, dada a nossa cultura patriarcal dominante, mas vejo também entre vários casais gays.  

E você, já viveu um relacionamento com alguém egoísta? 

domingo, 30 de abril de 2017

Fetiches do dia-a-dia

Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. (I Coríntios 6:12)

 

L: Viajando?
HS: Sim, viagem longa e pra longe. Acordado ainda Lê?
L: rss.... Aqui são 2130.
HS: Eh só eu ficar fora q vc começa com hábitos ruins kkkkk.
L: E tanta história pra contar kkkk.
HS: Eh mesmo? Opa!
L: Afff. Só vc voltando pra me regular.
HS: Quem te comeu?
L: kkkkk o macho alpha q eu tava adiando conhecer. Me arregaçou!
HS: Gente...
L: Fiquei quase abalado.
HS: Até tremi o dedo aqui. Quem eh esse?
L: Dúvida cruel se levo adiante.
HS: Lembro de uma história dessas mas qdo vc tava com seu ex.
L: Teve tb?                                                
HS: Teve. Um cara que te deu uma intimada forte.
L: Pensa num cara gostoso.
[manda foto]
HS: hahahaha q tesão esse cara. Deve ter feito barba, cabelo e bigode em vc. E ele curtiu tbém? Quer repetir ctgo?
L: Cara tá fissurado hahaha. Tem os q curtem homens maduros. Ahaaaa sou maduro kkkkk. Ai meu amigo, fiquei c medo de confundir minha cabeçinha.
HS: Lê, pra vc estar assim eh pq deve ter sido mto intenso.
L: foi pra caralho.
HS: E te proporcionado sensações diferentes das usuais. Pq não usufruir? Seria muito contraditório?
L: Aí já não sei. Tive medo de estar voltando para um conhecido muito angustiante. Tesão demais e nada demais. Sei lá... [grifo meu]
HS: Huuummmm.... Nossa, isso eh muito interessante. Ah Lê, eu sempre sou pelo lado de não deixar passar coisas boas. Acho que vc tem tarimba suficiente pra levar isso sem surtar...
L: Pois é... Mas com o namorado tá bom demais. Não seria besteira pôr em risco?
HS: Mas tbém tem tarimba pra preferir não... Vc não eh obrigado e não precisa disso pra ser feliz. Já provou o que tinha de provar hahahaha. 
L: Cara rolou um lance de dominação surreal. Sutil.
HS: E vc curte dominação né, Renata? [piada interna de amigos com altíssimo grau de intimidade]
L: Tipo o lançe era eu cozinhar pra ele enquanto ele ficava vendo TV, tomando heinekken e fumando seu marlboro. Juro, um tesão! E meio carinhoso, mas tb brusco. Pura fantasia.
HS: Te bateu?
L: Uns tapas na cara enquanto metia. E no fim me comeu numa posição em que eu não tinha como escapar. Olha! Tesão.
HS: Essa fantasia eu tenho tbém... De não ter como escapar...
L: Cara, depois posso te comer assim!!! Kkkk td mto didático.... Seu lindooooooo!
[risos....]

Se quiser ficar só com o gostinho da fantasia dessa transa na cabeça, termine a leitura por aqui...

Se quiser ler e analisar alguns aspectos da conversa, vem comigo!

Em primeiro lugar, eu tô meio passado por ter usado um versículo bíblico pra abrir o post. E especialmente este versículo de Paulo, porque sempre me incomodou essa história de que "nem tudo me convém". Explico: na minha vida sempre tive de conviver com gente me limitando os desejos e as ações, tive uma criação rígida de pai conservador e da própria igreja, e infelizmente, a educação cristã tradicional tende a colocar deus como um pai punitivo e o pecado como ponto central de toda a doutrina. Perverso, não?

Eu abandonei há muitos anos esse conceito maldito de pecado e disse pra mim mesmo que nunca mais deixaria ninguém me dizer o que deveria ou não fazer, ou me dizer que algo era proibido ou que não me convinha... Quem decide isso sou eu! Quero inclusive ter a prerrogativa de cometer meus próprios erros e de aprender com eles. 

Então o uso deste versículo aqui tem esse sentido: ninguém melhor do que você pra decidir se algo lhe convém ou não. Os outros até podem opinar, falar da própria experiência, mas quem decide é você. Isso sim é livre arbítrio! (E por favor, decida sem medo de represálias divinas ou de ir pro inferno futuramente). Tem vontade de fazer? analise, meça as consequências, planeje... E faça! Eu prefiro me arrepender de algo que fiz do que de algo que deixei de fazer (por medo de arriscar). 

A discussão do que convém ou não cabe bem neste relato do Léo, amigo meu carioca e super querido! Não conversávamos já há algumas semanas e num dia de semana à noite ele me escreveu pra contar o ocorrido. Léo tem um namoro estruturado, maduro e há uma abertura 'tácita' entre eles pra experiências extras ocasionais (e ninguém precisa contar pro outro... Só se proteger, óbvio!). E essa abertura é muito conveniente porque eles moram em cidades diferentes então se vêem com menor frequência. Convenhamos: é algo bastante civilizado e razoável, não? (bom, eu acho...)

Então meu amigo Léo por vezes se diverte, dá uma variada, alivia o tesão e o stress com histórias como esta. Mas dessa vez foi um pouco mais do que uma mera foda pra não acumular fluídos. Rolou uma identificação maior com a fantasia de dominação, um certo desejo de ser subjugado por um macho - e pelo visto, ele encontrou alguém perfeito pra realizar.

 

Conversamos dias depois e o Lèo (um ser humano já bastante analisado por anos de terapia) me disse que havia pensado na situação e chegado à conclusão de que não precisa disso. Que ele é homem macho também e não precisa ser subjugado por outro homem macho. A idéia em si soa interessante, excitante pra ele, mas na hora H, também rola certo desconforto em se imaginar naquele papel subjugado. Foi uma conclusão interessante,  que o deixou tranquilo para não continuar essa história, e ele nunca mais se encontrou com o tal cara gostoso. 

 

O outro ponto interessantíssimo é o que ele fala na frase que grifei: Tive medo de estar voltando para um conhecido muito angustiante. Tesão demais e nada demais. 

Essa é uma situação que vira e mexe me confunde a cabeça. Acho que nós partimos do pressuposto de que se existe tesão, tudo o mais vai existir... Mas basta pouco tempo pra gente se dar conta que nem sempre. E aí, o que fazer numa situação assim? Pra algumas pessoas pode ser muito frustrante acontecer isso, elas estão de certa forma -condicionadas- a se envolver em relações que tragam necessariamente alguma carga de sentimento junto. Outras pessoas conseguem administrar isso bem e fazer a separação entre sexo e sentimento, sabendo que podem aproveitar estes momentos, apesar de não serem necessariamente "completos", e que tudo bem ser assim. 

Mas tem uma variável que precisa ser levada em conta aqui: quando rola tesão de ambos os lados e ninguém tem outra expectativa, daí tudo bem - estaríamos diante do famoso conceito de pau amigo e isso pode ser incrível. O que pega mesmo é quando as expectativas diferem entre os dois. É aí que mora o perigo. 

No caso do Léo, o que pegou mesmo parece ter sido a sensação de que só tesão demais é insuficiente pra ele e que mesmo a foda mais foda do planeta não valeria a angústia do vazio que viria na sequência. Claro, faz sentido, se você considerar que ele tem tesão e vários 'algos a mais' quando está com o namorado. 

Pra fechar, quero falar um pouco sobre essa coisa de ser dominado por um outro homem. É incrível a herança machista que ainda recebemos e sob a qual somos educados. A questão aqui não é sobre orientação sexual e atração por pessoas do mesmo sexo. É muito mais sobre gênero e como nós gays nos enxergamos como homens. 

 

Eu até acho que faz sentido pensarmos que antes de sermos gays, somos homens. E aí, como é que temos nos visto enquanto homens que somos?

Nossa sociedade machista e preconceituosa estabelece medidas de valoração e escala que colocam certos tipos no panteão da masculinidade (os tais machos-alpha, por exemplo) e claro, para que isso seja possível, terá necessariamente de jogar outros tipos nas partes inferiores da escala. E isso muitas vezes nos traz sentimentos de inferioridade, incapacidade, a ponto de precisarmos olhar em outra figura masculina como se buscássemos algo que supostamente nos falta. 

Ou mesmo na via contrária: quando rechachamos os tais "afeminados" (ai gente, que horrível essa atitude dos gays... Muito triste ver tanta ênfase nisso, sinceramente) e no fundo acho que temos medo de que estar perto de alguém assim vai nos "roubar" a masculinidade (aquela que julgamos não ter o suficiente) - da mesma forma como muitos héteros têm esse medo inconsciente de que podem "virar gays" se conviverem com outros gays. Muito louco, né?

É uma equação perversa e muitas vezes enraizada em nós. É difícil quebra-la, se libertar, mas não é impossível. Me pergunto quantas vezes procuramos masculinidade no outro pelo fato de não conseguirmos enxergar isso em nós. O próprio Léo se questionou isso: por que preciso de um suposto macho alpha pra me dominar se eu sou homem e tenho tanta potência quanto ele?

 

Não quero com isso bancar o chato e ficar tirando o barato dos outros. Há algumas fantasias que podem ser interessantíssimas...Eu mesmo tenho fantasias com lutas, me imagino numa luta onde quem imobiliza o outro, come ele como prêmio. Ou situações em que o parceiro te prende e te come, sem você ter como escapar hehehe... Um jogo simulado (e claro, consentido) de dominação. No fundo, seja hetero, seja gay, sexo tem um quê de dominação e competição.

 

A questão é só mesmo avaliar até que ponto curtimos isso por não nos vermos homens o bastante.A fantasia pode ser super saudável ou mostrar algo interno que precisa ser trabalhado em nós. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Carnaval 2017 parte III - Gustavo, um quase-namorado

E quando eu te encontrar, meu grande amor, me reconheça! (Angela Rô Rô)
Os opostos se distraem. Os dispostos se atraem. (O Teatro Mágico)

Vocês sabem que o pontapé definitivo para começar a escrever esse blog veio de um fora que tomei de um anjo que conheci no carnaval do ano passado e pelo qual me encantei perdidamente? Foi a motivação para o 1o post escrito aqui... e lá se foi um ano de muitas histórias, lembranças registradas e partilhadas.

Pois não é que uma situação muito parecida me aconteceu também em 2017? Mas com um final diferente.

Eu tenho aprendido que sim, pode demorar, mas as coisas boas acontecem, disse isso aqui recentemente. E como é verdade!!! [Claro, vc tem de fazer por onde, não adianta ficar sentado no sofá comendo doritos e vendo BBB.]

Apesar de toda a pegação do carnaval, os meus mixed feelings estavam à solta... O fim da história com André, os atritos com meu melhor amigo Mário e a total falta de paciência com o pessoal que estava junto no apto que alugamos. Então na média, o carnaval não estava tão bom quanto o do ano passado (exceto pela surpreendente pool party). 

A pegação forte dos blocos era uma tentativa [um tanto quanto desesperada] de aliviar a dor pela ausência do André e pelo distancimento do Mário. Funcionou, até certo ponto. Novamente, não espero encontrar morangos em plantação de laranjas, mas que a gente procura... Aaahhh, isso procura!. 

Pois bem. Ùltima noite de carnaval, bloco noturno, Marina da Glória. Havia muita, mas muita gente e o bloco estava atrasado, tinha uma música preliminar tocando mas que se ouvia pouco pelo número de pessoas. Nós estávamos num grupinho fazendo um aquecimento, bebendo [e pra variar eu sem muita paciência depois de tantas confusões e desencontros da turma].

Nessas aglomerações as pessoas vão tentando abrir caminhos pelos grupos, vão tentando passar, meio apertado, às vezes empurrando. Lá pelas tantas vejo um garoto lindo, alto, aquele tipo magro que eu adoro. Ele passava ao lado do meu grupo e eu tentei colocar meu braço junto ao dele para que ele o sentisse enquanto caminhava. 

Ele não só sentiu como correspondeu ao meu movimento, olhou diretamente nos meus olhos e começamos a nos beijar. Simples assim. Sem nenhuma palavra dita. O olhar já dizia sobre o desejo intenso que subitamente brotara ali.


Nos beijamos por um bom tempo, nos curtimos, nos tocamos, nos sentimos... Parecia que não havia mais nada ali, apenas uma música de fundo. Eu gostei demais do beijo e da pegada dele e numa hora em que ficamos abraçados começaram as perguntas básicas sobre nome, idade, profissão, etc... E a constatação mais curiosa de todas: ele mora em SP e trabalha a duas quadras de onde moro. Não... Nunca havíamos nos enconrado ou nos cruzado pelo bairro até então. 

Como ele estava de passagem por ali e precisava achar os amigos, nosso momento não durou muito. Mas trocamos contato com a "promessa" de um novo encontro no bloco antes do amanhecer. Ali tinha acontecido um princípio de conexão, quando vc marca "SIM" para vários 'quesitos' que valoriza e que busca em alguém. E pelo visto, tinha sido um movimento de mão dupla. 

Nós ainda nos encontramos uma segunda vez e ficamos juntos, foi tão bom quanto. Ele não ficou até muito tarde, mas me disse que se quisesse, poderíamos ir à praia na manhã seguinte. Eu acordei e liguei pra ele... Nos encontramos, tomamos café num lugarzinho super charmoso em Ipanema e fomos pra praia... Pegamos cadeiras e guarda sol e, antes de nos sentarmos e depois de termos tirado as camisetas, ele me abraçou forte e me deu um beijo. Cinematográfico. Minhas pernas bambearam ali... Parecia cena de novela das oito [dos tempos em que elas eram boas].

Ele voltaria à tarde para São Paulo. Eu o levei até o apto em que ele estava e nos despedimos.  


Infelizmente ele se mudaria de SP por questões profissionais em poucos dias e para um lugar bem distante. Então nós simplesmente curtimos todo o tempo que tínhamos, felizes por esse 'encontro' ter acontecido e ao mesmo tempo sem nos lamentarmos pelo 'desencontro' que aconteceria logo na sequência [só um pouquinho...]. Aquela conexão era algo precioso e, pra mim, um indicador do que devo buscar e do que tem me feito falta [e que era tanto o que eu queria ter tido com o André, mas que não rolou].

No pós-Carnaval nos vimos todos os dias, e nosso sexo foi arrebatador, o encaixe perfeito! Sexo com carinho e intimidade é sensacional (não que precise ser sempre assim, pois não é algo fácil de se materializar). E para além do sexo, nós começamos a ver nossos gostos em comum, curtir a companhia um do outro, e tudo foi correndo de forma natural. Novamente, era muito gostoso sentir que havia um caminho aberto entre eu e ele e isso me deixava tranquilo pra ser carinhoso, intenso, falar das minhas coisas pra ele, de perguntar sobre as coisas dele, etc... Como é bom ser correspondido, não?

E o corpo dele me dava arrepios, me causava um tesão maluco... Magro, definido pela academia disciplinada que ele faz quase todos os dias, pêlos na medida e um tônus equilibrado, sem exagero. Sabe quando vc olha e vê ali toda a materialização da beleza masculina? E havia uma correspondência da parte dele, algumas vezes eu o pegava me olhando como se também admirasse meu corpo... Em uma das noites em que me levantei do sofá pra pegar um vinho pra nós, ele me pediu pra parar no meio do caminho, me olhou (eu estava só de cueca) e disse (como se falasse pra ele próprio): "nossa, eu tenho muito bom gosto mesmo..." 

 

O momento mais mágico dessa semana passada com o Gustavo foi o fechamento do carnaval 2017 com ninguém menos que a rainha Daniela Mercury! São Paulo nunca mais foi a mesma depois que ela, em janeiro de 2016, levou uma multidão da av. Faria Lima até a Igreja da Consolação em 6 horas de bloco. Era lindo ver as duas faixas da Avenida Rebouças (pra mim, um dos símbolos mais opressores da dureza do concreto e do mau planejamento urbano dessa cidade) tomadas de gente feliz. Em 2017 o percurso foi menor, mas foi tão intenso quanto. E choveu, como choveu!!!! E nós ficamos juntos o tempo todo dançando, beijando, nos abraçando e curtindo um ao outro!

 

Agora, teria um problema... [sempre tem, né?]. E eu não sei como eu conseguiria resolvê-lo [se é que teria jeito]. 

Do que conversamos e nos conhemos, o Gustavo parece ser um cara mais "certinho", estudioso, criação mais rígida, muito focado no trabalho, batalha pra caramba e não tem o hábito de curtir a noitada como eu e meus amigos mais próximos curtimos. Nem chegamos a conversar sobre isso, mas eu teria um abacaxi pra descascar ao falar pra ele das últimas festas que tenho ido e de como tenho aproveitado minha solteirice nos últimos anos. Não sei o que ele iria achar, mas certamente ficaria um pouco assustado [numa de nossas conversas pós-sexo não sei ao certo porque o assunto veio, mas ele disse que não tirava a camisa na balada 'por princípio'... Eu engoli a seco e disfarçei, hehehe - apesar de que ele me conheceu no carnaval sem camisa].

E nesse meu momento de vida eu consigo imaginar a 'sociedade gay' dividida em dois grandes grupos

               1) aqueles que tem uma vivência mais ampla da sexualidade em um estilo de vida muito característico dos gays de grandes cidades do ocidente, construído nas últimas décadas de liberação comportamental. Esse estilo inclui baladas (mesmo que vc já tenha passado da faculdade), abertura pra relações amorosas-sexuais não convencionais, relativização da monogamia como indicador de fidelidade e experimentações com drogas (especialmente as sintéticas). Basicamente, pode ser descrito como uma "reação" e uma alternativa ao tal 'padrão heternormativo dominante'.

               2) gays que, "apesar" de serem gays, vivem uma vida praticamente igual à da maioria dos heterossexuais, não havendo grandes diferenças em relação a eles (exceto pelo fato de que se relacionam com pessoas do mesmo sexo). Eles vivem relações monogâmicas tradicionais, querem se casar, ter filhos, enfim, viver uma vida muito parecida com a que levam seus pais, irmãos, primos e colegas de trabalho heteressexuais.

Não estou pleiteando caráter científico e estatístico para essa divisão [inclusive porque há heterossexuais que se assemelham aos gays do grupo 01], mas ela faz muito sentido pra mim ao olhar os gays que conheço. E aí vem o dilema: eu faço parte do grupo 01 e conheci alguém do grupo 02. O que esperar disso?

O sortudo filho da puta do Mário, hehehe...deu sorte de encontrar um namoradinho do grupo 01 e tá lá, feliz da vida, namorando e ao mesmo tempo curtindo a balada, as balinhas, o key, sem ter de abrir mão de nada (bom, foi uma longa e tortuosa negociação entre eles...). Até foram na sauna dia desses e aprontaram horrores por lá!

Eu acho que provavelmente o Gustavo não toparia passar do grupo 02 pro grupo 01, e caberia a mim fazer uma [difícil] escolha. Passar eu para o grupo 02 e viver essa história plenamente ou me manter no grupo 01 correndo provável risco de perdê-lo? Seria muito difícil decidir e sinto que perderia muito, qualquer que fosse a escolha. Felizmente (ou infelizmente, a depender do ângulo), nao foi preciso.

Pra fechar esse texto, eu citei a música do Teatro Mágico porque quando de fato se quer, as pessoas fazem acontecer. Não tem enrolação, não tem "talvez, ainda não sei", não tem "tá, qualquer coisa eu ligo", não tem "vamos ver como rola". E quanto antes conseguirmos descobrir se o outro com quem estamos nos relacionando é "oposto" ou "disposto", menos sofrimento para nós e menos estaremos andando em terras desconhecidas. Pra cada tipo, um jeito diferente de tratar e se portar. 

PS: pra quem não conhece, o lindão da foto é o porn star Jarec Wentworth, revelado pela produtora de filmes Sean Cody[em breve teremos um post sobre Porn, prometo!]. Nem precisa dizer que é COMPLETAMENTE meu número, e me lembrou muito o meu quase-namorado!Jarec Wentwort

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Carnaval 2017 parte II - receita pra afastar mágoas

Eu não espero o carnaval chegar pra ser vadia. Sou todo dia, sou todo dia! (Pabllo Vittar) 

Três anos de carnaval no Rio e deu pra aprender muita coisa da dinâmica gay da festa lá. Eu jamais saberia que podia ser assim. Agora, não troco!

 

Os aplicativos de troca de mensagens e as redes sociais ajudam imensamente pra que você faça a escolha certa ou a menos pior. Com eles você consegue ter uma boa idéia de onde a galera que é igual a vc vai estar e daí, é só zarpar pra lá (claro, se vc tiver comprado o bilhete do metrô antes, sair com antecedência pra pegar as filas imensas das estações da zona sul ou conseguir pegar um uber ou taxi via app).

Alguns blocos, que muitas vezes parecem mais aglomerações caóticas improvisadas, têm um "carimbo" de gay ou gay-friendly na testa, e isso significa que a sua chance de beijar e se divertir com outros muitos boys aumenta significativamente. 

 

Sim, porque no Rio há tantos blocos e tem pra todos os gostos, inclusive para os héteros e aqueles mais família, mais tradicionais. Então, saber escolher é fundamental, até porque muitos acontecem em horários simultâneos e a festa tem só quatro dias. 

Claro... O Rio fica muuuuuito gay no Carnaval, não é que haja uma segmentação estrita; em praticamente todos os lugares você deverá ver rapazes se beijando... Mas se dá pra facilitar, por que a gente vai complicar, não é? E eu, particularmente, destesto aglomeração de hétero bêbado querendo arrumar confusão. 

Tenho um amigo que toda vez que sai à noite dá um show de pegação nas pistas de Sampa. Só que no carnaval ele muda o foco... Ele veste sua fantasia riponga de palhaço e sai pra dançar marchinhas com as amigas HT e beber até cair. Rola um boy no meio do caminho? Claro que rola [ou rôla]... Até mais de um. Mas ele não tá pensando nisso quando faz a mega planilha excell organizando seus 5 ou 6 blocos por dia de folia. 

 

Eu não, eu já quero estar num aglomerado de gente interessante e com vontade máxima de interagir. Quero estar em lugares onde me sinta parte da maioria e onde haja abertura para a liberdade e para a libertinagem. 

 

Isso você encontra no Rio. E cooooomo encontra, minha colega!

Pra quem relaciona a vivência ampliada da sexualidade como um importante exercício de liberdade é simplesmente sensacional poder entrar dentro da muvuca de um bloco, sem camisa, latinha de cerveja na mão, algum pequeno adereço charmoso [como chapéu panamá, gravatinha borboleta, entre outros] e paquerar, olhar nos olhos, dizer na lata "delícia, quero vc!", ou mesmo nem precisar dizer nada e simplesmente beijar... beijar... beijar [como se o mundo fosse acabar logo ali quando o bloco dobrasse a esquina]. 

        

Um festival sequencial de beijos, com quantos você quiser e conseguir. Às vezes vc gosta mais de um beijo e fica ali parado por mais um tempinho... Mas a fila anda e vc quer conhecer outros foliões. Ação exploratória de corpos e bocas na potência máxima. 

Carnaval é isso.... Quantidade [às vezes, confesso, a gente abre mão um pouco da qualidade hehehe], fugacidade e luxúria. [poderia até fazer uma defesa moral desta equação, mas não tô com o menor saco agora. E claro...não sou obrigado kkkkkkk]

PS1: infelizmente, a região da Farme de Amoedo em Ipanema ficou perigosa... Local certo de muitos meliantes mal intencionados e chance altíssima de ter seu celular furtado ou mesmo de ser assaltado. Uma pena... Nos dois últimos anos senti um clima muito pesado ali. Mas continua cheeeeeio de viado! 

PS2: não deixe de curtir a praia em Ipanema, pedalar e/ou correr na Lagoa, e depois se jogue nos bloquinhos do centro do Rio, mais seguros e divertidos!  Tenho um super carinho pelo Toco Xona, bloco de Sapas lá de botafogo que mandam muito bem no som pop! O outro bloco BAPHÔNICO se chama Bloquete (sugestivo o nome, não?) - é chegar e se jogar!