segunda-feira, 24 de julho de 2017

Reencontros e desencontros - breve reflexão sobre a amizade

Acho que no geral, as amizades desempenham um papel ainda mais importante para LGBTs, pois são a fonte de apoio e prazer num mundo que ainda aceita com dificuldade as orientações sexuais e identidades de gênero não-dominantes.


No processo de descoberta e afirmação, muitas vezes nos afastamos da família e do antigo círculo de amigos e temos a alegria de descobrir pessoas que estão num mesmo processo e que têm as mesmas questões que nós. E aos poucos vamos vendo que não estamos isolados no mundo.

Comigo aconteceu assim; eu tenho muito orgulho dos meus amigos gays de mais de 15 anos, amizades ininterruptas e é muito interessante ver como evoluímos juntos, como pudemos testemunhar e participar de vários acontecimentos e com um influenciou o outro nas trajetórias individuais.

Sem esses meus amigos (e os que foram chegando ao longo dos anos), eu seria uma pessoa completamente diferente da que sou hoje (com certeza, muito menos interessante e evoluída).


Atualmente, dois fenômenos interessantes acontecem (e o adjetivo "interessante" não significa que venha sem um pouco de angústia também).

Relatei a briga que tive com o Mário no carnaval desse ano e o baita estrago que isso fez na nossa amizade. Nós conversamos, colocamos tudo em pratos limpos, eu me desculpei quinhentas mil vezes e aparentemente tudo estava bem.


Só que com o passar das semanas eu fui percebendo que o Mário tava um tanto quanto indiferente comigo, parou de compartilhar as coisas dele, nos falávamos com menos frequência... de repente eu tava sabendo coisas dele por 3os; coisas que antes saberia por ele.

Me dei conta que o Mário tinha perdido a espontaneidade comigo. E essa, minha colega, não dá pra fingir. Ou se tem ou não se tem.

Isso me deixou inicialmente emputecido por me sentir excluído de um convívio tão especial que tínhamos antes. Eu cheguei a pensar que as coisas estivessem devidamente sacramentadas e que não haveria mais o que fazer. Cheguei a "dar por perdida" essa amizade.

Mas felizmente a gente aprende na vida a ser um pouco mais analítico e, acima de tudo, paciente. Não se desesperar nem bancar a histérica. Com um pouco de dificuldade consegui entender que era normal que isso acontecesse, que para ele foi difícil ouvir as palavras duras que ouviu de mim e que eu preciso ter paciência e dar tempo ao tempo.

Então me aquietei e continuo a amizade com ele como se tudo estivesse bem, mesmo ciente de que nem tudo está como era antes. Mas vai voltar a ficar. E eu tô me esforçando pra isso.

Ao mesmo tempo... (e isso é muito interessante, hehe)... eu me dei conta de estar vivendo um processo semelhante com o Leandro, meu outro grande e melhor amigo. Só que aqui eu estava na posição inversa.

Eu e Leandro somos muito próximos há uns quase dez anos e ele tem um papel fundamental na minha vivência gay. Leandro foi o cara que me apresentou o maravilhoso mundo da sauna e me ajudou muito a viver minha sexualidade de forma muito mais livre e prazerosa (ao mesmo tempo em que ele também vivia a dele).

Só que de uns anos pra cá a gente foi gradualmente se distanciando. E isso é um pouco da vida... de repente começamos a ter interesses diferentes, um recusava os convites do outro, queríamos lugares e companhias diferentes. E nesses "interesses diferentes" entraram outros amigos, conhecidos e um namorado que vivem em outra cidade.


Eu me senti preterido, escanteado. Fiquei furioso. E a minha reação foi também a da perda da espontaneidade. Passei a trata-lo de forma fria, meio que protocolar. Claro, ele percebeu isso, mas soube entender e esperar. Ficou na dele (como boa pessoa analisada que é, e como alguém que conhece muito bem as neuroses do amigo).

Nos últimos meses esse processo de distanciamento chegou ao fim, de forma natural e espontânea. Voltei a ter intimidade com ele, voltei a curtir e a buscar os momentos na companhia dele, recuperamos a liberdade um com o outro pra falar o que quiser, de quem quiser [e acredite, isso rende momentos hilários!].


Novamente a "vida" me ensinando que é preciso ter paciência com as coisas, que o tempo das coisas não é necessariamente o meu tempo de pessoa ansiosa e que quer tudo pra ontem. Mais um aprendizado que é bem vindo!

"Quando bons amigos brigam, o importante não é quem ganha/perde. O importante é quem perdoa, esquece e ainda quer ser amigo."

domingo, 23 de julho de 2017

À flor da pele

Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar flor na janela me faz morrer

Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele tem o fogo do juízo final

Um barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Um bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!
(Zeca Baleiro, Flor da Pele)

Esses dias não tem sido fáceis pra mim.



Dizem que o primeiro passo pra resolver um problema é admiti-lo e eu preciso admitir meu estado de absoluta carência afetiva e que ele tem me feito sofrer um pouco além da média. 

Nas últimas semanas eu oscilei entre acreditar que a história com o Asher fosse de alguma forma possível e achar que não havia a menor possibilidade disso acontecer.

Acho que gastei energia desnecessária aqui, nos falamos algumas vezes por msg, eu me empolgava, as borboletas saíam do estômago novamente, mas aí na sequência vinha o silêncio (me incomodava o fato de sempre eu ter a iniciativa de puxar passo no whatsapp) e eu voltava a ficar triste. 

Cheguei a ensaiar pegar um avião e encontra-lo. Primeiro pensei: 'ok, você vai, será maravilhoso e depois? Vai voltar pro Brasil e ficar ainda pior. Vai sair do céu direto pro inferno.'

Depois pensei: 'eu preciso tirar isso a limpo, viver essa história, ainda que seja por um momento. Que seja eterno dentro deste curto momento.'

O fato é que eu o chamei no whatsapp para falar disso (já havíamos aventado essa possibilidade em conversas anteriores) e ele me disse que estava no trabalho e que me retornava em breve. 

Não retornou. [porra, que doído isso... eu não sei se é uma dificuldade em dizer 'não' à medida em que um avança e o outro não, mas deixar assim no vácuo é tão pior...]. De qualquer forma isso foi a deixa final pra eu entender que essa história acabou por hora. Você não responder uma msg - significa? Significa.

Ela TEM de acabar, pro meu próprio bem.

Nessas horas me alivia um pouco a angústia me comunicar por meio de músicas, sempre tem uma letra incrível. E lá fui eu pro facebook

Mandei a sofisticada Sunrise do Simply Red:

Maybe the next time I'll be yours and maybe you'll be mine
I don't know if it's even in your mind at all
It should be me, it could be me
Forever

Inesperadamente, em poucos minutos, ele curtiu meu vídeo e me retribuiu com Lust for Love da Lana del Rey. Para além do meu coração ter disparado, eu realmente não consegui entender muito porque ele estava me mandando essa música. 

O foda é que só consegui me reter na parte que fala:

My boyfriend´s back. And he´s coolest than ever.


Me doeu ler essa frase. Será que fiz uma análise míope e enviesada da letra? É uma canção linda, um pouco deprê [bom, é Lana del Rey haha], mas fala de um encontro, da possibilidade de influenciarmos os destinos das nossas vidas, de uma noite em que houve muita alegria (exatamente como aconteceu conosco).

Por hora eu decidi que não vou fazer nenhum momento. Não quero mais ter contato. Essa história vai ficar guardada em alguma gaveta bem profunda da minha alma... vai ficar lá - e ou aos poucos vai se decompor ou em algum momento vai renascer [eu posso estar muito pirado da cabeça, mas porra, será que encontros assim simplesmente acontecem pelo mero acaso?] 

Eu preciso zerar completamente minhas expectativas e esquecê-lo [sim, já tinha dito isso no post anterior mas não coloquei e prática - péssimo planejador eu, não?]. Vou ficar mal alguns dias, mas vai passar. SEMPRE passa.



O fato é que continuo procurando uma conexão mais intensa com alguém. Eu preciso admitir isso pra mim mesmo. Nessas últimas semanas saí com vários caras, fodas incríveis, e eu tenho me percebido na tentativa de estabelecer conexões com esses caras... a forma como beijo, minha dinâmica corporal, uma atitude mais carinhosa em encontros que a princípio dizem respeito a sexo, e nada mais. E isso tem me incomodado, porque com essa busca vem muita ansiedade, uma energia pesada - novamente me parece a velha história de procurar morangos numa plantação de laranjas.

Não sei muito o que fazer. Até apareceu um cara legal que conheci na balada, com quem daria pra pensar numa história mais séria, estável. Mas eu não senti o bastante que justificasse fazer esse movimento, e olha que eu tentei. Não vou também forçar uma situação só porque quero namorar, não é assim que as coisas funcionam.

Paciência não é das minhas maiores virtudes, mas nessas horas a gente percebe que não tem controle da situação. Talvez seja o caso de eu "simplesmente" estar aberto pra alguma história que venha a surgir [porque tem isso também... quantas vezes queremos algo e quando surge a oportunidade, nós não consideramos ou mesmo nem percebemos?].

Continuar focado no trabalho, cuidando do corpo e da mente, tentando manter a serenidade e controlando a ansiedade. E acima de tudo, SE ESQUECER daquilo que tem te feito mal e te trazido ansiedade. 

Ficar focado nisso, até que, como já dizia Cartola pela voz incrível de Ney:

Fim da tempestade.
O Sol nascerá.
Finda esta saudade, 
Hei de ter outro alguém para amar. 

E você, que leu este relato até aqui, só posso te agradecer por ter me ouvido. Obrigado! :)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Vivências gays pelo streaming


Texto fresquinho [sem nenhum trocadilho, vai gente.... rs....] lá na nossa página cultural - Plataforma Obvious Magazine

Nos últimos meses fiz alguns registros e análises dos vários filmes de temática LGBT que assisti nas plataformas Netflix e Amazon e a boa notícia, eles estão se multiplicando cada vez mais...

E se você curtir algum que não esteja disponível para o Brasil, um arquivo torrent pode resolver seu problema. 

Eu me animei com a perspectiva de que tenhamos cada vez mais títulos disponíveis via streaming. Segue abaixo o link:

http://obviousmag.org/diarios_de_um_gay_paulistano/2017/vivencias-gays-pelo-streaming.html  

O texto traz vários spoilers, mas sinceramente, acho que não prejudica em nada que você veja os filmes. Até porque algumas das histórias são super complexas e admitem vários ângulos de análise. 

Acho incrível quando conseguimos ir além da visão superficial da história e avançar na análise, relacionar com a nossa própria vida... muito da riqueza do cinema reside aí.

E se quiserem sugerir novos títulos para futuros artigos, fiquem à vontade! Como disse ao final do texto, não fiz resenhas dos vários filmes lésbicos que também estão disponíveis, então se alguma moça quiser escrever, ficarei feliz em publicar aqui no blog e na nossa página no Face.

bjs!!!

HS Sampa

PS1: e por falar em mulheres, quase enfartei com a notícia de que teremos nova temporada de The L Word com todas aquelas sapas maravilhosas (e ao mesmo tempo tão diferentes nas suas personalidades). 


A personagem de Jennifer Beals sempre foi minha predileta [ok, há um forte viés aqui, pois gosto dela desde Flashdance...], seguida da maluca e muitas vezes irritante personagem de Mia Kirshner. Acho inclusive a série bem mais interessante do que Queer as Folk [ok, há aqui também um forte viés pois adoro as locações em L.A./Califórnia].


Pra quem não sabe The L Word foi exibida entre 2004 e 2009, retratando o cotidiano de um grupo [fervidíssimo] de amigas lésbicas e bissexuais vivendo em Los Angeles. Sem dúvida alguma foi um marco importantíssimo da afirmação da visibilidade LGBT na televisão norte-americana. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Eu, carente? um contraponto...


Puts, como é difícil receber "críticas" de quem amamos e, consequentemente, de quem queremos que tenha uma boa visão sobre nós.

A gente quer sempre "estar bem na fita" com as pessoas e às vezes temos dificuldade em nos mostrarmos vulneráveis, inseguros, confusos. Sei que não é fácil, mas é importante termos com quem dividir medos, dúvidas e frustrações.

Eu tenho tentado fazer esse exercício, sempre que necessário, não me impondo obrigação de perfeição. E sempre procuro também acolher que se aproxima de mim com os mesmos sentimentos. 

E nesse contexto, nada como receber uma crítica construtiva, carinhosa e de alguém que sim, se preocupa com vc, ainda que não necessariamente entenda o seu jeito de ser (e discorde dele). 

Minha conversa com o Mário, no sábado de noite/momento pré-balada foi assim:

M: e aê... vai rolar TW à noite?
HS: então, por mim sim... vcs tão no clima?
M:TOP!
HS: tô precisando de um up, vcs me ajudam?
M: Como assim? vc tá a semana toda animado!!!
HS: Hj me bateu uma bad...ah, vc conhece seu eleitorado kkkkk
M: Bad de que? Dormiu na casa do boy... almoçou com amigo... balada com os amigos. Não foi bom o almoço?
HS: Almoço foi ótimo... mas depois fiz umas falas com outras pessoas que me deram outras visões... panorama no trabalho tá meio assustador. Bom... e tem o Asher. não queria, mas mexeu muito comigo e eu não consigo esquecê-lo.
M: queridão... vc ainda tá mto vulnerável.
HS: Eu tô... sentimentalmente tô sim... Só vou deixar de estar qdo vier uma história legal e minimamente estável...
M: Tá uma carência desenfreada da peste!!!
HS: Eh vontade de ter alguém mais perto. Que mal há nisso?
M: Isso é o problema... toda história que vc começar... já iniciará carregada... Vc precisa de leveza meu amigo. Esse alguém só virá se vc achar alguém pra dividir as coisas e não pra carrega la com suas expectativas.
HS: Como faço?
M: São horas de papo... mas em poucas palavras vc tem de estar desimpedido com suas expectativas
HS: Vc acha que sou muito intenso?
M: Senão toda história tomará proporção maior do que é e deixará vc frustrado.
HS: Good point!
M: Think about and lets play with the boys...They are here :) 

O Mário normalmente consegue ser mais frio e calculista nas análises, bem mais do que eu. E ele já vinha me "alertando" sobre esse meu padrão desde a história do André

Quando ele me falava sobre isso me incomodava bastante. Eu me sentia sendo autêntico nos meus sentimentos e correndo atrás daquilo que desejava e entendia ser o certo pra mim. Ainda o questionava porque atualmente pra ele é fácil se posicionar assim. Ele tem o boy dele, estão sempre juntos, saem juntos, aprontam juntos. Então ele tá suprido nas carências e necessidades dele. E olha que ele se recusa a chamar essa relação de namoro. Pode tortura-lo mas ele não vai pronunciar essa palavra proibida, hehe. 

Mas eu tentei abstrair isso e analisar se o que ele estava falando fazia algum sentido. E tenho certeza que ele disse de coração, sendo sincero e querendo ajudar ao perceber isso. 

E de fato, eu acho que tô chegando com uma expectativa muito grande nas histórias que surgem. E isso pode atrapalhar. Eu ando querendo tanto uma história que agregue sentimentos também (além do sexo e diversão) que corro o risco de projetar demais essa expectativa no outro e fazer isso rápido demais. E preciso, claro, me certificar se há uma sintonia semelhante da outra parte. Porque certamente essa energia que você coloca na história é captada e sentida pelo outro.


Sabe aquela música do Kid Abelha: 

Se a gente não fizesse tudo tão depressa,
Se não dissesse tudo tão depressa,
Se não tivesse exagerado a dose,
Podia ter vivido um grande amor.


E sim, por mais que eu não goste de admitir, eu ando muito carente... inclusive pelo fato de ter vivido momentos intensos e incríveis nos últimos tempos e claro, isso te faz desejar isso novamente, de forma mais constante. Em especial a história do Asher: foi tão intenso que me fez projetar coisas demais, grandes demais, definitivas demais. E as histórias de amor não se constroem assim... nem sei, aliás, se isso era amor ou só paixão, não teve tempo.  


Acho que no contexto, isso vem da minha própria personalidade. Quando tenho um objetivo e certeza de algo que quero, costumo ser intenso e buscar de todas as formas, às vezes até exageradamente (o mais complexo é ter certeza de que se quer algo... mas qdo essa certeza vez, daí ninguém me segura.). 

Nessas horas me vêm também a música do Chico, Futuros Amantes: Não se afobe não, que nada é pra já. [falar isso pra uma pessoa ansiosa é a morte! hahahaha]

Fico grato e feliz pelas palavras do Mário e mais vigilante quanto às próximas histórias. Um pouco de leveza vai me fazer bem. 

Isso não quer dizer que eu não possa me dar o direito de ser intenso e verdadeiro nos meus sentimentos. Mas posso fazer isso sem pesar no outro, sabendo que as histórias de amor e paixão não têm absolutamente nenhuma garantia e que é preciso aprender a navegar nesses mares inconstantes [ora calmos, ora agitados] sem naufragar.  


Pra frente, são duas questões "a ver":

1 - vou conseguir segurar minha ansiedade e voracidade e 'aplicar' essa teoria? Ou na hora em que surgir outra dessas histórias eu vou mandar tudo à merda e me jogar de cabeça?

2 - será que voltei mesmo a acreditar numa visão de amor romântico? [logo eu, discípulo da Regina Navarro Lins?] 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu quero namorar! [um texto sobre esperança]

Não vou sentir medo de me entregar
O medo passa longe de mim
Tem que correr quem quiser alcançar
E é claro, claro que eu tô afim
Caju, Caju* eu leio os sinais
Vem vindo coisa boa pra mim
Me sinto bem, me sinto capaz
De transformar o tempo ruim 
(Pode Ser O Que For, Marina Lima)

Incrível como o mundo dá voltas bem antes do que esperamos.

Há pouco mais de um ano, eu escrevi um texto chamado EU NÃO QUERO NAMORAR!!!!!!! (assim mesmo, em letras maiúsculas... como se estivesse gritando, puto da vida).

Mas os últimos meses foram me trazendo novas situações e novas vivências. Felizmente eu consegui me permitir vivê-las e isso me abriu um pouco os horizontes e me trouxe novas perspectivas, a ponto de hoje - junho de 2017 - eu estar escrevendo um texto de título oposto.


Vou narrar brevemente como cheguei até aqui.

Primeiramente, há pouco mais de dois anos fui apresentado a um universo até então desconhecido de festas no qual pude conhecer casais que têm uma vivência a dois, mas que que inclui interações com terceiros, quartos e quintos. Isso é vivido como algo que naturalmente faz parte do 'viver a dois'. Longe de ser algo contraditório, acaba sendo algo agregador e que contribui para fortalecer os laços e manter acessa a chama do tesão - como na história do Laio e Roberto. 

Isso me mostrou que havia possíveis caminhos alternativos à monogamia estrita e aprisionadora - coisa na qual não acredito e onde definitivamente não desejo estar.


Dentro deste contexto, que foi sendo percebido e apreendido por mim, entra a história do André - por mais dolorido que tenha sido o desfecho, por mais raiva que tenha ficado dele, essa história foi uma espécie de turning point. Me permiti novos sentimentos. Gostei demais do André, fiz planos a dois com ele, me vi vivendo uma história ao lado dele sem medo de me sentir sufocado, pois ambos tínhamos uma visão mais aberta sobre relacionamentos e isso foi um fator chave pra me dar tranquilidade em viver isso.


Depois veio o Gustavo, essa certeza de querer namorar aumentou ainda mais, novamente uma conexão incrível e eu continuava tranquilo a respeito disso. Certamente se ele tivesse ficado em Sampa, eu teria me jogado de cabeça nessa história.

A gradação da intensidade atingiu seu ponto máximo há algumas semanas quando um novo encontro aconteceu. Verdadeiro, mágico, quase surreal. Em uma festa nossos olhares se cruzaram e pararam... nos aproximamos, começamos a nos tocar, a nos explorar, a nos [re]conhecer.


Asher tinha um olhar certeiro, firme e eu não me deixei intimidar. Respondi com um olhar tão forte e decidido quanto. Após alguns instantes, o primeiro beijo e foi como se as comportas da represa do desejo tivessem sido abertas e uma energia intensa fluísse dele pra mim e de mim pra ele.

Nós ficamos juntos até o final da festa, numa sintonia incrível, os dois descamisados dançando, cantando, nos beijando, nos tocando, nos abrancando, dizendo coisas lindas no ouvido um do outro. "Babe, I think I like you". "Babe, you´re sooo sexy!". "Babe, I´ll take care of you".  Eu tenho ciência que a bala que eu havia tomado potencializou tudo isso (e ele certamente havia tomado algum aditivo também). Mas isso não tira a autenticidade e a verdade desse encontro.


E por mais incrível que pareça, essa sintonia que tivemos não barrou algumas brincadeiras com terceiros ao longo da noite... houve espaço para alguns bons beijos a três, o que de maneira alguma mudou minha disposição em ficar com ele. Me senti tão à vontade com o Asher, me despi de todas as minhas armaduras, naquele momento fui meu mais autêntico 'eu', disse e fiz coisas de maneira espontânea e sem me preocupar. Parecia que só havia nós dois ali, eu e ele, curtindo o maravilhoso som eletrônico que o DJ tocava.


Houve um momento hilário quando um garoto que dançava perto de nós nos olhou e disse: please stop kissing, you two are soooo cute! E de fato, a gente tava numa beijação tão intensa, eu acariciava o rosto e a cabeça dele, não conseguíamos parar... simplesmente.

A festa estava tão, mas tão boa; fazia calor, estávamos ao ar livre e o céu estava lindo... eu não queria que acabasse, não podia acabar, eu queria tanto curti-lo mais... de certa forma eu sentia que aquele momento seria único e muito dificilmente se repetiria.

Terminamos a festa no quarto de hotel dele pra uma noite incrível e gostosa de sexo. Carinho, cuidado, cumplicidade... eu me questionava como era possível que tudo isso acontecesse em tão pouco tempo, com alguém que eu acabara de conhecer. Eu me sentia seguro com ele, cuidado por ele, conectado com ele.


Novamente questões de geografia inviabilizaram a continuidade da história. Vivemos a uma distância muito grande um do outro. Na nossa última conversa via whats up, eu senti na fala dele que seria assim. Claro, não era o que eu queria ouvir, eu preferia ouvi-lo dizer que queria ficar comigo, apesar da distância. Bom, talvez ele seja mais pé no chão do que eu, hehehe...

A: I´m in bed. Going to sleep. Too tired.
HS: In bed... huuummmm
A: ahah. I wish you were here next to me.
HS: Me too. Close to you. I would kiss you the whole night.
A: Why did I meet you. Why? Now yor are so far.
HS: I ask myself the same.
A: For sure.
HS: Don´t know what to do with all this I´m feeling.
A: Feel alike. Can be virtual friends. Tell each other secrets. :)
HS: It´s so unfair.
A: I know! What other options we have?
HS: I was always too rational... too strong. And suddenly one look of you changed everything. 
A: Oh babe. I smile to myself.
HS: Something changed inside me...
A: I´m glad it was me the trigger for this change. You are so cute with a big heart.
HS: Babe, we don´t have to ´label´ things right now... let things flow... without pressure... who knows what can happen...
A: Right. I agree.
HS: Despite anything that can happen (including 'nothing'), I´ll be forever grateful for our paths have crossed that night.
A: So romantic babe. And I think we are also very similar. We have felt the same that night and I´m also very rational and strong.
HS: I´m so happy you felt the same... the connection we had... this is so rare... so difficult to happen... You woked up my romantic side who was asleep hahahahahaha now it´s like a vulcan!!! But instead of fire... it´s all about good feelings hahaha
A: Let it be out. You´re doing it rigt :) And you are so fucking sexy.
HS: Just for you babe.


Será isso o começo do amor? Será isso uma típica manifestação da paixão? Independente do que for, por quanto tempo dura?

Mesmo tendo durado tão pouco e sabendo que as chances desta história vingar são mínimas, esse encontro me trouxe esperança, me fez voltar a acreditar no amor, que o amor pode ser possível pra mim e de que vale muito buscar por algo assim.


Eu andei descrente disso por muitos anos, inclusive pelo que via de casais ao meu redor. O que eu via não me apetecia nem um pouco, ao contrário, me causava repulsa. Mas eu fui catapultado a um outro nível de emoções que nem sei se já senti isso um dia (e sim, eu já me apaixonei algumas vezes no passado, já namorei também).

De repente me peguei fazendo os planos mais malucos, mudando pro país dele, construindo uma vida a dois, reestruturando minha vida pra poder viver ao lado dele [às vezes tenho medo da minha imaginação, porque ela parece não ter limites e me leva a lugares e situações muito diferentes da realidade em que vivo]. Mas fato é que eu tenho muitos sentimentos bons guardados dentro de mim, só esperando uma janela de oportunidade para serem externalizados e exercidos.

Termino dizendo novamente que este é um texto de esperança, de alguém que está buscando a felicidade por caminhos que aos poucos parecem se tornar mais conhecidos, menos sombrios e menos intimidadores.

Eu vivi isso. Foi incrível. Aconteceu comigo. Sou muito grato! Mas agora é hora de esquecê-lo, pra não sofrer mais pela impossibilidade de estarmos juntos. E considerar essa história como parte de um caminho que ainda vai me trazer coisas tão ou mais incríveis e com potencial mais duradouro.

Por enquanto, foram alguns chutes na trave. Em breve, vai vir um gol de placa! Essa história (assim como as outras) me preparam pro futuro que virá! E como diz a canção, vem vindo coisa boa pra mim! 



* Se você não conhece essa canção inspiradora de Marina, clique aqui - e vá até 28m09s (o arquivo é do disco completo Marina Lima, de 1991 - claro, vale muito a pena ouvi-lo inteiro). Quando ela fala Caju, Caju, está se referindo a seu amigo Cazuza, que tinha esse apelido. Provavelmente foi escrita após sua morte e é como se a cantora desse algumas boas novas a ele via plano espiritual.

domingo, 11 de junho de 2017

Marina Lima para libertinos

E finalmente ficou pronta minha trilogia 'Música para libertinos'!!!

Tô muito feliz por ter fechado estes três textos sobre três das minhas cantoras prediletas: Adriana Calcanhotto, Karina Buhr e Marina Lima.

Eles podem ser todos acessados na nossa página cultural na Obvious Magazine. 


 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os impactos das nossas escolhas - um texto 'sobre' e 'para' mulheres

Eu não posso te deixar, te deixar. Querida minha. Te levarei junto. Disse o assassino. Com aplausos do público. (Esôfago - Karina Buhr).

Mulher sem razão ouve o teu homem. (Mulher sem razão - Bebel Gilberto / Cazuza)



Este texto é uma reflexão sobre a difícil conquista da autonomia feminina em um mundo [ainda] machista.

 
Outra viagem de trabalho e um reencontro super gostoso com uma querida amiga de Sampa.

Após muita insistência dela, acabei aceitando o convite para me hospedar em seu apartamento, mesmo tendo a possibilidade de ficar em um hotel pela empresa. Sabia que perderia minha privacidade por completo, assim como a possibilidade de explorar a "cultura local", rs... Mas com certeza valia a pena pela possibilidade de passar mais momentos com ela após mais de dois anos sem nos vermos. 

Marília atualmente é uma dedicada esposa e mãe de uma bebê muito muito fofa, que despera até em mim os instintos mais profundos de paternidade (não se empolgem muito... Já passou rs...). 

 

E vê-la assim me levantou uma série de questionamentos e reflexões.

Marília sempre foi uma mulher independente, decidida, que fazia as coisas sem se importar muito com a opinião alheia. Ela foi criada numa família meio errática, com pai e mãe um tanto quanto desnorteados, mas felizmente (inclusive pelo apoio de tios, tias e primos) conseguiu fazer uma boa faculdade e começou a se estabelecer profissionalmente. Nunca reclamou das dificuldades e sempre deu duro, mesmo em empregos não muito bons. 

Eu sempre admirei essa garra dela e a postura de "comigo não tem tempo ruim, bora vencer na vida!". Ela tinha se mudado pra São Paulo num movimento de ascensão profissional e estava indo muito bem, ganhando mais, comprou o 1o carro e as possibilidades de desenvolvimento na carreira eram evidentes. Os feedbacks da sua chefe eram os melhores e em pouco tempo já tinha se tornado a principal assessora. 

Marília descobriu as delícias de Sampa e se adaptou muito bem aqui, dividindo apto no centro com um colega gay.  Ela é do estilo "mulherão" - pernão, peitão, bundão - então claro que isso chama a atenção dos homens. E ela é beeeem namoradeira, hehehe (sem nenhuma conotação machista que normalmente é dada a este termo, principalmente pelas próprias mulheres) - ela gosta de namorar, de conhecer e de transar com os caras, aparentemente sem muita culpa. O corpo é dela e ela faz dele o que quiser.

 

E isso eu observava, ela se impunha perante os caras, não baixava a cabeça, discutia de igual pra igual... Teve um namoradinho do interior - coitado - era tímido, ingênuo e completamente apaixonado... Penou na mão dela, foi feito de gato e sapato... Já um outro, malandro experiente e um pouco mais velho, tentou, tentou, mas não conseguiu dobrá-la... O namoro era uma constante montanha russa. 

Eis que num momento de solteirice da Marília, a família teve a "infeliz" idéia de apresentá-la ao Marcos.... Sabe aquela coisa da 'cliente da irmã que tem um primo solteiro da igreja' ? Pois fizeram um jantar pra que os dois se conhecessem e eles começaram a se ver, a sair e pouco tempo depois engataram um namoro. Acho isso incrível, porque normalmente se parte do pressuposto de que as pessoas estão infelizes por estarem solteiras, então é uma quase "missão" arrumar alguém pra acabar com isso. E no caso dela, havia um certo incômodo da família por ela ainda não ter se casado  - "afinal" já estava com 30 anos. 

O Marcos é um cara bem conservadozão, bem quadrado... Criação rígida, cresceu na igreja, os pais tinham um pequeno comércio e ele também sempre batalhou desde cedo. Do que consigo ver, acho que talvez nunca tenha tido espaço pra maiores diversões ou prazeres na vida, o importante era trabalhar, juntar dinheiro, ter uma vida melhor e com conforto. O resto é pura bobagem [meu pai pensa assim também].

O namoro foi evoluindo até que fatalmente veio a proposta de casamento, mas que implicaria em uma mudança para bem longe de São Paulo. A Marília tentou ainda arrumar um trabalho pro Marcos aqui, na empresa de um amigo nosso, mas o Marcos não queria ficar em São Paulo, não gostava aqui, da bagunça e agitação, queria um lugar mais tranquilo e seguro. Daí ele de certa forma colocou um ponto de inflexão na história: se ela não quisesse se mudar com ele, talvez fosse o caso de não se verem mais. 

O fato é que Marília aceitou a proposta, eles se casaram e se mudaram de São Paulo para tentar a vida em outro lugar. Caso não desse certo, ficou acertado que voltariam.

Mas deu certo... 

E ela ficou definitivamente com Marcos numa cidade bem longe de São Paulo e da família dela. Pouco tempo depois eles engravidaram e atualmente ela cuida da casa e da filhinha recém nascida. 

A dinâmica do casal é interessante. Eu sinto que o Marcos se incomoda muito com esse jeito mais expansivo e espevitado da Marília - ela ri alto, é desbocada, adoooora uma cerveja... E na concepção do Marcos, isso não cabe a uma esposa-mãe. É mais uma vez a reedição do tosco "bela, recatada e do lar". Sinto que o homem hétero brasileiro padrão foi educado pra buscar isso: uma mulher que seja "discreta" (aaaahhhhh como odeio a conotação que deram a essa palavra nos nossos dias!!!!), que fale baixinho, que não seja questionadora, que acate as decisões do marido, afinal ele é o provedor do lar e "chefe" da família. 

 

Bom, se você considerar que a bíblia exorta as mulheres a serem submissas a seus maridos, não é de se espantar, né? (E daí os cristãos precisam dar saltos triplos carpados hemenêuticos pra justificar essa passagem de Paulo, relativizando o alcançe da palavra "submissa" - mas na verdade continuam pregando que cabe ao homem a palavra final sobre a família... Não muito diferente do que era no império romano... só não pode mais matar... Ah... Bater também não pode.... Até que é um avanço, não acham ?).

Mas voltando à dinâmica do casal - enquanto eu estava no carro com eles passeando pela cidade, os dois constantemente discutiam, trocavam umas farpinhas, umas ironias... E ele tem o hábito de chamá-la de "querida", e o tom é o pior possível, um tom irônico, do tipo "presta atenção na bobagem que você tá dizendo". O bom é que ela não se faz de rogada e revida. Ele fala pausado e baixo. Ela fala alto e incisivamente. Eu sinto que ele sempre tá querendo dobrá-la, quase que domesticá-la. Fica tentando fazer com que ela não beba, por exemplo. Só que naquele lugar, beber seja talvez o único pequeno prazer que ela tenha. 

 

Numa de nossas conversas a sós isso tudo veio à tona de forma sutil. Claro, eu não iria dizer tudo o que achava, que achava que ela não deveria ter saído de São Paulo, que deveria ter ficado aqui e feito carreira, curtido a cidade e que caso quisesse se casar, que fosse com alguém mais parecido com ela. A essa altura do campeonato, seria muito cruel da minha parte fazer isso. 

Mas eu sinto que ela vive esse conflito até hoje, pensando se fez a melhor escolha. E de certa forma, pra buscar um pouco de conforto (porque reverter uma decisão dessa é muito custoso - praticamente impossível) ela busca formas de se convencer. A tantas da conversa ela me fala - "Ah, o Marcos foi um presente de deus". Foi como se ela entendensse que estava trilhando um caminho errado em São Paulo e que deus então, para "ajudá-la" a corrigir esse caminho, tivesse mandado um varão para resgatá-la. 

Incrível como na visão dela, a vida que ela levava em São Paulo - autônoma, dinâmica, intensa e pazerosa - talvez não fosse a mais adequada para uma mulhere 'direita'.  É um movimento forte, e às vezes é difícil resistir. Essa sensação de impropriedade, de culpa, de reprovação - que é sentida por nós mesmos mas também que vem em nossa direção a partir de pessoas próximas. A Marília tentou resistir à pressão da família, conseguiu por um tempo, mas aos 44 do segundo tempo, acabou cedendo a essa idéia e optou por "adequar-se".

Sempre me incomodou e me revoltou esse tipo de movimento na nossa sociedade machista e patriarcal. Primeiro há a figura paterna para manter as mulheres dóceis e bem comportadas. O pai é substituído na sequência pela figura do marido e esse cerceamento continua firme e forte. Felizmente muita coisa mudou, a começar pelo discurso, pregando mais igualdade entre os gêneros. Mas a prática ainda deixa muito a desejar. Muitas mulheres são cotidianamente cerceadas por seus maridos em sua autonomia. Muitas nem se dão conta disso. Outras aceitam passivamente. Algumas poucas tentam se rebelar e pagam um alto preço. Pagam o preço de serem hostilizadas por parentes e amigos próximos ao casal, são taxadas de inadequadas, isso quando não sofrem algum tipo de violência física ou verbal.

Eu espero que mesmo em um cenário que não lhe é muito favorável, a Marília consiga incorporar outros papéis ao de mãe e esposa - ela é  do tipo empreendedora e certamente vai acabar abrindo um pequeno negócio na cidade. Torço pra que resista a todas as pressões ilegítimas que incidem sobre ela, que não se submeta aos caprichos machistas do marido (que pensa inclusive estar agindo na melhor das intenções, em benefício do casal e da própria família) e que continue a tomar sua cervejinha gelada sempre que quiser!