terça-feira, 23 de maio de 2017

Parceiros egoístas e a renúncia


 

A gota d'água pra escrever este texto veio de um post que li no insta de um médico subcelebridade que sigo.

Sinceramente, nem sei ao certo porquê continuo o seguindo, pois o cara se acha a última coca-cola do deserto e claramente usa o instagram pra se expôr, adora criar uma controvérsia pra movimentar sua página e o pior é que as pessoas fazem justamente o que ele espera que façam. E ele ganha fama na rede, ganha mais pacientes no consultório e mais participantes nos cursos que dá. Mais importante ainda, alimenta e massageia seu ego. Talvez manje de marketing tanto quanto parece manjar de medicina.

Mas esse post em especial me incomodou bastante. Ele fez uma espécie de declaração para a noiva, elogiando-a, dizendo que se sentia muito feliz por saber que ela o amava, que ela tinha muitas qualidades - era discreta (coisa que ele não é nem um pouco), bondosa, família e acima de tudo segura. Foi quase uma reedição do machista "bela, recatada e do lar" - a mulher que se anula para que o homem à sua frente possa brilhar. 

Ele a agradece pelo fato de ficar na retaguarda para que ele possa cumprir sua "missão" na terra de ajudar as pessoas. Para fazer isso ele precisa trabalhar muito, inclusive nos finais de semana, e ela está lá, o apoiando ainda que isso signifique pouco tempo na presença dele. 

"E não haveria possibilidade para que minha vida fosse direcionada realmente a esta minha missão de mudar vidas, se ela não estivesse por trás dando suporte, sendo tudo o que é pra mim, e ainda por cima tendo esta surpreendente segurança, que aceita com a maior das compreensões que minha missão não deve ser interrompida ou ter mais um obstáculo dentre tantos, desnecessariamente. "

Quando li o post pensei comigo: nossa, tomara que ela sinta o mesmo em relação a ele. Tomara que ela sinta essa mesma segurança quanto ao sentimento dele por ela. 

Eu fiquei incomodado com o post porque soa como se o cara estivesse usando a noiva pra um projeto pessoal dele sem necessariamente torná-la parte dele. Ela tá lá à disposição dele, pra quando ele precisar, pra quando ele não estiver na missão de mudar vidas e precisar de alguém pra fazer companhia.  Soa pra mim extremamente egoísta. O que importa é ele, o projeto dele, a suposta missão dada a ele por deus para ser cumprida na terra (nossa, como o cara é importante, né? Recebeu uma missão pra cumprir na terra!). Auto estima é mesmo tudo na vida!

 

E o que será que esse cara faz pela noiva? Será que consegue abrir um espaço dentro do seu mundo-umbigo para enxergá-la como pessoa distinta do projeto megalomaníaco dele? Será que ele também participa dos projetos dela? (Ou será que ela nem tem como ter seus projetos ou ter a presença dele nestes sob risco da missão divina na terra ser ameaçada?)

A partir desse exemplo, eu fiquei pensando em como muitas pessoas tratam seus parceiros de forma utilitarista, fazendo com que eles sirvam a seus projetos pessoais, sem necessariamente dar nada em troca. O que importa é esse projeto e a pessoa está tão encimesmada que não consegue olhar para o outro e perceber as suas necessidades e os seus projetos. E isso muitas vezes acontece de forma extremamente sutil, sem que o outro se dê conta.

Ainda por cima o outro, na ânsia de ajudar o parceiro e talvez como forma de 'garantir' o seu amor, muitas vezes acaba aceitando isso e aos poucos vai se anulando, perdendo sua individualidade e passando a viver a vida em função de um projeto que não é seu. Pagam um alto preço na forma de insignificância e anulação - e se um dia em que tomarem um pé na bunda por não servirem mais ao projeto do parceiro, sairão sem nada construído. 

Isso acontece muito com mulheres, dada a nossa cultura patriarcal dominante, mas vejo também entre vários casais gays.  

E você, já viveu um relacionamento com alguém egoísta? 

2 comentários:

  1. Parabéns pelo Blog! E pela percepção!

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  2. Obrigado pela mensagem e que bom que curtiu! Apareça outras vezes e deixe comentários sempre que desejar!

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