sábado, 5 de agosto de 2017

DSTs em alta - parte II

As notícias do post anterior sobre DSTs não foram apenas 'notícias' pra mim. 

Há duas semanas o Mário deu um susto na gente. Passou um final de semana prostrado, cansado... E na 2ª feira foi pro hospital e logo diagnosticaram hepatite A. Eu fui pra lá ficar com ele e não é nada agradável ver um amigo na cama de hospital doente. A infecção veio bem severa nos primeiros dias mas depois se estabilizou e agora está tudo bem, ele já está de alta. Mas acredito que esse susto tá fazendo ele repensar algumas coisas na vida (se bem que o bicho é teimoso que só vendo kkkkk).



Há uns dias outro amigo do interior, Henrique, me ligou aflito dizendo que havia feito sexo oral em um cara que ele desconfiava ser HIV+. O cara não gozou, não houve contato com esperma, mas ainda assim, a prática concentra certo risco. E lá fui eu correndo buscar informações com uma amiga do Ministério da Saúde. E acabei aprendendo também.

Existem dois tipos de estratégias de prevenção para pessoas que entram em contato com o vírus HIV. Elas são nominadas pelas siglas 'PEP' e 'PrEP'.

PEP é a profilaxia pós-exposição, por exemplo, quando o preservativo se rompe numa transa ou quando profissionais de saúde tem algum acidente de trabalho, por exemplo, um corte ou uma picada de agulha. Na dúvida, receita-se uma combinação potente de antiretrovirais que deve ser tomada até 72 horas após o ocorrido (tem de ser até esse prazo, senão não faz efeito) e durante os próximos 28 dias. 


Não é toda a prática desprotegida que tem essa recomendação, no caso de sexo oral sem ejaculação inclusive, mas eu não sei exatamente o que meu amigo disse no serviço de saúde, fato é que ele conseguiu a medicação e está tomando (não é fácil, há alguns efeitos colaterais como enjoo e diarreia nos 1os dias, mas é comprovadamente eficaz em reduzir muito as chances de infecção, caso a outra pessoa tenha o HIV).

PrEP é a profilaxia pré-exposição e recentemente foi incorporada ao SUS. Aqui também toma-se uma combinação de antiretrovirais (menos potente do que na PEP) diariamente, como forma de dar ao organismo uma proteção prévia caso ele se depare com alguma situação onde venha a ter contato com o vírus. Pras pessoas que tem dificuldade em usar preservativo em todas as relações sexuais, a PREP vem como uma estratégia adicional de prevenção. Assim como no caso da PEP, não é indicada pra todos os casos, por isso, uma ida ao serviço de saúde ou ao seu infectologista continua sendo primordal! 


Vamos fechar o assunto com duas ótimas notícias:

A 1ª é esta que eu disse acima: a PrEP chegou ao SUS! Claro, ainda vai levar um tempo para estar totalmente implementada e disponível nos serviços de saúde, mas a experiência internacional já mostra claramente que é uma estratégia de prevenção eficaz e que chega pra se juntar às demais estratégias que já temos. 

A 2ª boa notícia se refere à divulgação de pesquisas com casais sorodiscordantes, mostrando que portadores do HIV com adesão ao tratamento e carga viral indetectável não transmitem o vírusIsso é fantástico [e agora há evidências robustas a confirmar a hipótese] e contribui para tirar a alta carga de estigma imposta às pessoas soropositivas. 

Mostra também que é possível levar uma vida praticamente normal e ter um parceiro, ainda que sorodiscordante sem que isso signifique risco de infecção - um fantasma que sempre assombra os portadores, pois muitos acham que por terem adquirido o vírus jamais terão vida amorosa novamente ou que só poderão se relacionar com outras pessoas HIV+.

O desafio agora é espalhar essa mensagem, pois é uma informação ainda pouco difundida na população, como mostrou uma pesquisa recente. A desinformação ainda faz com que muitos não considerem a possibilidade de relacionar com uma pessoa portadora do HIV, quando, de novo, não há risco de contágio se o tratamento estiver sendo seguido corretamente e a carga viral estiver indetectável. 

Vejam que, do ponto de vista de saúde pública, o "problema" não reside nas pessoas HIV+, como muitas vezes o senso comum coloca. Estes estão diagnosticados e em tratamento. O grande vetor de transmissão está colocado nas pessoas que não sabem o seu status sorológico e mantém relações sexuais desprotegidas. Se alguém é portador do vírus HIV mas não sabe disso, não estará em tratamento e sua carga viral muito provavelmente estará elevada a ponto de facilmente transmitir o vírus. É deste cenário que surgem os novos casos. Portanto, continua sendo importantíssimo a prática regular de testagem.



E a testagem está cada vez mais fácil! Os testes hoje já são feitos por meio da saliva (não em todos os lugares, mas a tendência é essa). Antes vc tinha de coletar sangue na veia. Depois surgiu o teste rápido que só precisava de um furinho no dedo e uma gotinha de sangue. E atualmente já é utilizado um o teste rápido no qual vc usa um tipo de cotonete para coletar saliva.

E desde junho desse ano já está disponível nas farmácias um autoteste para detecção do HIV (lembrando que há um período de 30 dias para que o teste consiga detectar a presença do vírus no organismo, a chamada janela imunológica. Antes disso, o teste não terá utilidade). O preço é salgado, mas ainda assim, paga a angústia da dúvida.


Aproveitei o dia de hoje e fui renovar meus testes. HIV, Sífilis, Hepatites B e C. Todos não-reagentes! Por mais que me proteja usando camisinha, ainda assim também me sinto um pouco vulnerável por ter múltiplos parceiros (e gostar disso). Sempre acho que em algum momento terei um encontro marcado com a sra dona Sífilis. Felizmente não foi dessa vez!

O aconselhador do Centro de Testagem, que virou meu amigo, me disse hoje: é a "regra": um pouco de seletividade.

De forma semelhante, achei bacana o que um médico infecto disse num de seus vários textos do blog que sigo, o Universo AA.
E o que fazer frente a isso tudo? O melhor é fazer o que sempre recomendo em relação a qualquer DST: ficar esperto e pensar/falar/agir sobre o assunto, e não ignorar e esperar que algum desfecho ruim aconteça.
O que dá pra aprender disso tudo: precisamos gerenciar nossas vulnerabilidades. Este é o ponto! Aprender a administrar e lidar com riscos. E pra isso, o primeiro passo é ter ciência de quais riscos corremos e adotar estratégias para evita-los ou remediá-los (quando for possível). Cito novamente o médico do texto anterior:
A camisinha é sempre a melhor maneira de [se] proteger de qualquer DST, mas se ela não está sendo usada, conversar com os parceiros sobre suas rotinas de rastreamento de DSTs e manter-se sempre em dia com os seus próprios exames de rotina é algo fundamental para qualquer pessoa que pratique sexo oral desprotegido com parceiros casuais. Dessa maneira, por mais que acabe pegando alguma dessas outras DSTs, o diagnóstico e o tratamento adequados poderão evitar tanto o desenvolvimento de complicações da doença quanto o ciclo de transmissão para novos parceiros.
Algumas dicas simples e fáceis de seguir:
  • Tenha uma rotina de testagem regular em você e no seu parceiro: a testagem está disponível nos serviços de saúde ou nos laboratórios, via convênio/plano de saúde. 
  • Informe-se com um profissional de saúde sobre sinais e sintomas causados pelas DSTs e fique atento em seu corpo e, na medida do possível, no de seu(s) parceiro(s) também (lembrando que às vezes DSTs podem ser assintomáticas). 
  • Mantenha-se em dia com a vacinação: hepatite B e agora também a hepatite A. 
  • Saiba onde e como acessar a PEP, em caso de um descuido e avalie com seu médico ou profissional do serviço de saúde se vale a pena adotar a PrEP como estratégia adicional de prevenção.
  • Em caso de diagnóstico de uma DST, é fundamental testar e tratar os parceiros também. Aqui vale inclusive um lembrete ético: por mais difícil que seja, é importante avisar seu(s) parceiro(s) mais recentes do ocorrido. 
Por fim, se por acaso você se descobrir HIV+, por mais difícil que possa ser, saiba que não é o fim de tudo. O tratamento está disponibilizado na rede pública de saúde, a adesão é bem mais fácil hoje em dia e o conhecimento científico avançou muito a ponto de permitir às pessoas uma boa qualidade de vida. Durante as pesquisas para escrever este texto descobri o blog de um jovem soropositivo e gostei bastante das informações lá disponíveis bem como da rede de apoio criada a partir dessa iniciativa. Vale a pena conferir!

As pesquisas seguem rumo a facilitar ainda mais a adesão (fala-se já em uma injeção mensal que substituiria as pílulas diárias) e também rumo a estratégias que consigam neutralizar o vírus no organismo (sem a necessidade do uso contínuo de medicamentos). Acredito que em poucos anos teremos boas novidades nesse campo!

Coincidentemente, essa semana assisti a um filme australiano na netflix chamado Holding the  man. Baseado em uma história real, conta a vida de dois jovens que ficaram juntos por 15 anos, desde o ensino médio. É uma linda história que mostra também as dificuldades enfrentadas para se viver esse amor (entre as dificuldades, a maior de todas elas, à epoca, o HIV).    

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